terça-feira, 16 de agosto de 2022

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Artigo

 

Valeu Zumbi

O grito forte dos Palmares

Que correu terras céus e mares

Influenciando a abolição…

E vem aí o 13 de maio, dia em que, em 1888, a princesa Izabel assinou a Lei Áurea abolindo a escravidão no Brasil.

Grande parte dos negros já haviam sido alforriados por iniciativa dos seus proprietários, diante da iminência da libertação, tendo em vista as pressões capitalistas e humanitárias para que a horrenda escravidão fosse abolida, erainevitável, uma questão de tempo para que fosse feita. O Brasil foi o último país da América a libertar os escravos.

          A abolição veio através da Lei Áurea, assinada por uma mulher, herdeira do torno brasileiro, num momento em que o pai, Dom Pedro II, travava sua frágil saúde na Europa. Coisa linda não? Mas, o que sabemos além disso da princesa Izabel? Da maneira como a Historiografia tradicional nos reserva poucas linhas sobre sua trajetória, a impressão que nos dá, é que ela veio ao mundo, libertou os escravos, e foi abduzida.Por que, machismo, patriarcalismo, ódio da elite agrária por perder sua mão de obra sem direito indenização? Talvez tudo isso e mais um pouco.

         O fato é que ela era uma mulher à frente do seu tempo, se envolveu na luta pela abolição, dava guarida aos escravos foragidos. Mas com certeza, sua atitude não era simpática aos escravocratas, elatifundiários que controlavam a política e a economia a época.

         Quanto à abolição, da maneira que nos foi e ainda é contada, parece que foi um ato de benevolência do Estado, dos aristocratas, sensibilizados com os maus tratos reservados aos negros, e assim, num gesto de caridade, concederam a eles a desejada alforria.

          Desta forma, minimizam a importância das lutas, da resistência dos negros, das fugas individuais, das fugas em massa, dos suicídios, dos abortos forçados pelas negras, para que seus filhos não nascessem cativos, das escravas que evitam sexo, dos vários Quilombos que se formaram pelo Brasil, onde os escravos fugitivos podiam gozar um pouco de liberdade, mesmo muitas vezes sendo perseguidos por outros negros, os capitães do mato, é…E nos Quilombos tinham negros que escravizam outros negros, mas isso será tema de uma próxima oportunidade.

          Após a abolição, os negros não foram inseridos na sociedade, era raro os que eram aceitos em escolas. Foram viver nas periferias, nos morros, muitos continuaram nas fazendas, para pelo menos ter um teto e o que comer.

           A escravidão acabou há 133 anos, se levarmos em consideração, que cada geração corresponde a 25 anos, estamos na quinta geração pós escravidão, se os negros alforriados não tinham condições de se manterem nas escolas pelos mais diversos motivos, como hoje seus descendentes poderiam ocupar postos importantes na sociedade, na política, etc.?

          Não dá para pegar as exceções, e queremos fazer disso a regra, é pontual ver um negro no alto escalão, como o ex ministro do STF Joaquim Barbosa. Quantos mais? Ah, mas existe a meritocracia. Como falar em meritocracia num país onde há uma abissal diferença  social e econômica entre as classes?

          Viva André Rebouças, o primeiro engenheiro negro a se formar pela Escola Militar, viva Luís Gonzaga Pinto da Gama, advogado autodidata, só reconhecido como advogado 130 anos após sua morte, viva Dandara, Ganga Zumba, Zumbi, João Cândido e tantos outros anônimos que enfrentam ainda hoje o preconceito, a discriminação e outras injúrias sociais e econômicas.

Carlos Jordão

Formado em Direito pela UFMT

Historiador formado pela UNIC

Professor em Cuiabá .